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ericnorton
Um Homem Exorcizando Seus Demônios
 
Tio Baca

Miller, Sul de Minas.

 

Eric estava pilotando sua Kamen pelas ruas de Miller com Ian Abercrombie na garupa, em busca da casa de Tio Baca.

 

- Como você...? – perguntou Ian, referindo-se à milagrosa virada de mesa ocorrida momentos antes.

 

- Trouxe a moto usando um código de emergência. Depois, foi só desamarrar as cordas e pegar as espadas da Caixa Elétron. – Eric virou-se rapidamente e perguntou a Ian: - Tem certeza que não quer colocar uns curativos em suas unhas, pelo menos?

 

- Tenho. – disse ele, embora seus dedos ainda estivessem cobertos de sangue. - Mas como você se desamarrou?

 

- Segredo de profissional. Minha vez de perguntar: de que colar seu irmão estava falando?

 

- Minha mãe tinha um colar que nunca usava, mas que por algum motivo guardava a sete chaves. Alden sempre foi fascinado por ele. E isso significa que, se ele o quer tanto, deve ser por alguma propriedade sinistra que ele possui.

 

- Além disso, por que existe essa animosidade toda entre vocês?

 

- Porque nós nos odiamos desde que éramos crianças. Você tem que entender, minha família sempre foi qualquer coisa menos normal. E por isso eu fugi, no momento em que completei dezoito anos. Achei que Alden iria me deixar em paz, mas como eu roubei o colar, aparentemente isso não irá acontecer.

 

- Por que você roubou o colar?

 

- Porque era o único elo que eu tinha com minha mãe desde que ela morreu. Ele deveria ter sido destruído, na verdade. 

 

- Então sua mãe não queria que ninguém além dela o possuísse. Não pareceu uma boa idéia tê-lo roubado, então.

 

- Provavelmente não, mas eu não estava ciente disso na época. Mas ele está bem escondido; Alden não conseguirá acha-lo.

 

- Bom, bom. – Eric parou a moto. - Chegamos.

 

Estavam em frente a um casarão antigo, e tudo lá dentro parecia estar escuro.

 

- Essa é a casa do tal Tio Baca? Quem é ele, afinal?

 

- Ele é um Wuki. Isso significa que, depois de ter sofrido seqüelas de uma maldição, ele se tornou um especialista em magia. Mesmo que isso não tenha ajudado muito (não faça comentários sobre os pêlos), ele pode nos auxiliar com o seu problema.

 

- Pêlos? – perguntou ele, mas não ouviu resposta. Eric estava olhando para a porta, que havia sido aberta.

 

- Tio Baca?

 

Um homem quase completamente, mas não exatamente, coberto de pêlos castanhos saiu da casa, e fez um gesto com a mão para que entrassem. 

 

- Entrem. Vocês devem ter passado por maus bocados.

 

- Como você soube que estávamos chegando? – perguntou Ian, esperando encontrar com mais outra pessoa que via o futuro.

 

- Minha bola de cristal... ou talvez por esse idiota sempre cantar pneus na curva.

 

- Desculpe. – disse Eric, ciente de suas limitadas habilidades como motorista.

 

- Tudo bem. Como têm passado, senhores?

 

- Estamos mais ou menos bem, como você deve ter notado. Esse é...

 

- Ian Abercrombie. Adoro decifrar auras de pessoas introspectivas.

 

- Minha aura disse meu nome?

 

- Ela não “disse”. Nossas auras contêm tanta informação... Você só precisa saber... lê-las. Mas elas são apenas a capa de nossos livros biomágicos. Podem dizer nosso nome ou nossas intenções superficiais, até mesmo dar pistas sobre nosso caráter, mas nunca mostrar a essência de cada um. Vocês estão aqui com um propósito bem definido, mas vão conseguir muito mais do que poderiam querer.

 

- Como assim?

 

- Eric, minha dica estava correta? – desconversou Tio Baca.

 

- Sim, mas havia chegado tarde demais. Um homem branco tem violado a Diretriz Monteiro, mas não havia mais pistas de seu paradeiro. Ele cobre seus rastros muito bem, segundo os curupiras.

 

- Ainda não está óbvio para vocês. Não, talvez não. Ian, vamos cuidar de seus ferimentos.

 

Ian fez menção de abrir a boca, mas Eric balançou a cabeça negativamente e fez um gesto com os dedos indicando que depois perguntariam. Os dois jovens estavam perplexos, mas seguiram Tio Baca até uma sala nos fundos da casa cheia de potes de vidro, gaiolas e plantas.

 

Tio Baca olhou Ian de cima a baixo e mandou-o sentar.

 

- Suas mãos conheceram terra, Ian. Você sabe o que é um carrapato, imagino.

 

- Sei, claro.

 

- Pois bem. Você tem um desses. Ele é mágico. Quando você entrou no território Brazzileiro, seu irmão recebeu um aviso de um outro carrapato, incrustado nele ou em outra pessoa. Quem sabe lidar com magia consegue obter sua localização precisa em questão de segundos.

 

- E você pode matar esse... carrapato?

 

- Sim, eu posso. Mas não vou fazê-lo.

 

- Por que?

 

- Porque podemos saber, em contrapartida, a localização de seu irmão quando quisermos. O que posso fazer por você é tirá-lo de seu ombro direito, e colocá-lo em uma de minhas cobaias.

 

- Mas ele não poderia saber que ela está aqui e vir atrás de você?

 

- Não, minha casa é protegida por um campo de distorção strangeliano. Ninguém pode rastrear qualquer magia que faço aqui e nem, portanto, seu carrapato. Mas vocês ainda não fizeram a ponte...

 

- Que ponte, Tio Baca?

 

- Muito simples, Eric. O seu homem branco, o violador da Diretriz Monteiro, é o irmão de Ian.

 

- Como você sabe disso?

 

- Por que auras deixam traços que também podem ser observados. Traços que são transmitidos e retransmitidos. Você, Eric, tem duas impressões deixadas por Alden MacGregor Abercrombie. Uma pálida e outra contundente. A primeira foi adquirida em sua visita à Floresta Warriórica. A segunda, há poucas horas atrás.

 

- Meu irmão está montando um exército de criaturas sobrenaturais?

 

- Sim, e isso é algo terrível. Ele está subvertendo a natureza dessas criaturas e usando-as para alcançar seus objetivos mesquinhos. O efeito disso será extremamente predatório para todos nós, a não ser que vocês o impeçam.

 

- Nós?

 

- Sim, vocês dois estão destinados a isso, e você sabe.

 

- O seu quadro... – disse Eric. – Faz sentido, então.

 

- Meu não. De Pirer.

 

- Pois é. Eu disse que vocês iriam conseguir muito mais do que queriam. E sei que isso é difícil. Mas não estarão sozinhos. Eric, precisamos agir. Você precisa contatar Joshua Betto. Ele pode cuidar das investigações por vias “normais”.

 

- Investigações? – perguntou Eric.

 

- Tenho certeza que as conexões escusas de Alden ultrapassam as barreiras da Floresta Warriórica.

 

- Quem é Joshua Betto? – perguntou Ian, cada vez mais perdido.

 

- Um espião da BIA. Brazzil Investigation Agency. – explicou Eric.

 

- Também devemos falar com Guil e seus parceiros. 

 

- Um agente sensitivo. – disse Eric, antecipando a pergunta de Ian. – E não, ele não trabalha para nenhuma organização. Mas eu mal conheço o cara...

 

- Então é hora de forjar mais esta aliança. – disse Tio Baca, referindo-se à recém-formada aliança entre os dois jovens. – Agora, deixe-me trabalhar.

 

Ele sussurrou algumas palavras e retirou um fio de energia verde amarelada do ombro direito de Ian, e colocou-o em seguida em um morcego. - Pronto, agora descansem um pouco. Amanhã será um dia cheio para vocês.

 

 

 
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