Colocando as coisas em perspectiva:
Recebi uma máquina do tempo do Dr. Lloyd para que pudesse revelar detalhes da Estória secreta do Brazzil e também do mundo, mas as circunstâncias me fizeram desviar um pouco de minha senda original.
Em Antarctica, quando estava prestes a viajar para o futuro e presenciar a chegada da família real Ibérica, me deparei com um super-humano pela primeira vez. Ele se auto-denominava O Contista, e tinha poderes elétricos fantásticos, podendo não só emitir raios pelas mãos como também ler informação eletrônica, sintonizando ondas de rádio, celular e o escambau. Não sei o que ele buscava, mas foi atacado por uma horda de Mah-Lokeiros, um grupo de protoanarquistas estúpidos que causam a desordem em várias partes do Brazzil. Salvei-o, pois haviam-no capturado e colocado-o em uma jaula de borracha para provavelmente ficar lá até morrer.
- Eu ia resolver a situação.
- Não precisa agradecer. Sou Eric Norton, aliás.
- Bem, senhor Norton, sou O Contista. Preciso ir agora. Adeus.
E foi isso. Descobri mais tarde que ele publicava contos incrivelmente mal-escritos em revistas obscuras, explicando sua alcunha, e depois, por meio de Joshua Betto, que ele de quando em quando tentava desmantelar focos de crime em regiões do país, o que era provavelmente o que ele estava tentando fazer em Antarctica. Mas não dá para ter certeza. Se depender de mim, nunca mais falo com aquele puto.
Já Joshua Betto eu conheci em circunstâncias menos perigosas, apesar da natureza de nossos trabalhos.
- Um Shirley Temple, mexido, não batido.
- Quem é que vem a um bar e não bebe álcool?
- Meu nome é Betto, Joshua Betto.
- Foi uma pergunta retórica, mas... Norton, Eric Norton.
- Na verdade, estamos de olho em você, Eric.
- Estamos?
- Sou um agente da BIA. Brazzil Investigation Agency.
- Sei. Mas por que sou tão interessante assim para vocês?
- Sua moto é um brinquedo peculiar. Gostaríamos que um de nossos agentes desse uma olhada nela.
- Desculpe, mas isso não será possível. Sou bastante apegado a ela.
- Desde que não crie problemas, tudo bem. Podemos guardar nossa curiosidade para depois. Mas existe uma condição para que o deixemos em paz.
- E qual seria essa condição?
- Digamos que você fica devendo uma, casó precisemos de algo que esteja na sua área de expertise.
- Parece razoável.
- Desculpe ter que fazer isso. Odeio ser o portador de mensagens como essa.
- Tudo bem, você tem que fazer seu trabalho.
- E aí, o que o traz a Miller?
- O curso de Orientação Mundial. Queria aprender a salvar o mundo, sabe como é.
- Já fiz isso.
- O curso, você diz?
- Não, salvar o mundo. Algumas vezes. De um raio da morte, de um foguete descontrolado, de um chinês com tempo livre demais...
- Legal. Tem algum conselho para mim?
- Coma seus vegetais, pratique exercícios. E mantenha-se alerta. Vigilância constante é essencial.
- Acho que já vi isso antes em algum lugar.
- Você sabe que sim. Sei que você é um fã do Harry... Aquela moça deu alguns bons conselhos. Você faz bem em segui-los.
- Obrigado, você não sabe o quanto isso significa para mim.
- De nada. Quer pegar um cinema?
- Você pode fazer isso?
- Cara, parte do meu trabalho exige uma intensa atividade social. Portanto...
- Ok, vamos assistir algo. Mas eu escolho o filme.
- Como quiser.
Ainda devo o favor para a BIA, mas eu e Joshua já não tocamos mais nesse assunto. Viramos amigos. E foi através dele que conheci Tio Baca.
- Que lugar é esse, Betto?
- Essa é a casa de Tio Baca. Ele é um expert em coisas sobrenaturais. Eu o visito sempre que dá, pois ele me ajudou muito uma vez.
- Como?
- Fui mordido por um cara que tinha dentes de prata, e sofri uma estranha intoxicação. Minha secretária me indicou Tio Baca como uma espécie de curandeiro, e lá fui eu consultá-lo, pois nada mais havia dado certo. E ele salvou minha vida.
- O que você tinha, afinal?
- Argento Toxicattus. Uma maldição normalmente associada a lobisomens, mas que acomete seres humanos de vez em quando. O cara é bom. Estranho (não faça comentário sobre os pêlos, aliás), mas muito bom no que faz. E divertido.
Não achei-o tão divertido em minha terceira visita lá, quando fui designado com a tarefa de checar se a Diretriz Monteiro havia sido violada na Floresta Warriórica. Mas as conversas com Tio Baca me deram um vislumbre de um mundo ainda maior e estranho do que eu conhecia.
Não sabia, por exemplo, que existe uma ordem de agentes sobrenaturais que patrulham as cidades em busca de criaturas perigosas, mantendo-as fora do radar das pessoas normais. Dois desses agentes, Guil e Ror-Rê, eu tive o prazer de conhecer em minha segunda visita à casa de Tio Baca.
- Ah, Eric. Você está feliz.
- Lendo minha aura, hein?
- Sempre. É inevitável, pois ela está estática.
- Conheci uma garota, sabe como é.
- Certamente. Mas entre. Quero que conheça duas pessoas maravilhosas.
- Claro.
- Esse é Guil. - disse Tio Baca, me apresentando a um jovem baixo e careca. - E esse é Ror-Rê. - disse ele, me indicando o outro homem, um afro-descendente de cabelo enorme.
- Prazer, sou Eric.
Os dois apertaram minha mão, e eu senti algo estranho quando cumprimentei Ror-Rê.
- Desculpe, é algo normal. Tenho um campo de distorção espacial em minha cabeça, que está escondido no meio dessa juba, e ele emite uma energia residual. Mas não é nada prejudicial.
- Campo de distorção espacial? Achei que vocês fossem magos.
- Primeiramente, não somos magos. Somos agentes sobrenaturais. Em segundo lugar, não produzimos magia espontaneamente, isso requer uma habilidade inata que não possuímos. Apenas protegemos o mundo de ameças que podem ser consideradas mágicas. - disse Ror-Rê.
- Sem novidade. Esse é um erro comum entre os leigos. - disse Guil.
- Como? - perguntei.
- As fronteiras entre ciência e magia são meramente normativas. Todos os fenômenos podem ser explicados das duas formas, e isso não significa que uma está certa e a outra errada. São diferentes pontos de vista apenas. - Explicou Tio Baca.
- Mas você disse que não tem habilidades inatas... e tem um sei lá o que na sua cabeça!
- Isso é uma condição adquirida. Não nasci teleportando coisas pelo meu cabelo.
- Ah, é o que isso faz.
- Mais ou menos. É como se eu cortasse uma coisa de um lugar e colasse entre minhas madeixas. Não há transporte sentido literal, pelo continuum do espaço-tempo; apenas chamo dessa maneira por razões práticas.
- Claro. E você, Guil, faz alguma coisa? Aprendida, digo.
- Não, sou apenas um estrategista. Sem truques na manga. Ou na cabeça.
Demos risada, e esse é todo o precedente que terei quando pedir para os dois me ajudarem em minha cruzada. Planejo continuar com minhas incursões no passado e futuro para levar a cabo minha missão inicial, mas não há como negar a importância de meu novo desafio: Salvar o mundo das garras de Alden Abercrombie.
