Miller, Sul de Minas.
Trechos do diário de Elias Neve.
02 de outubro de 2005
Nunca estivemos sozinhos. A sensação de que existe algo maior acontecendo bem debaixo de nossos narizes não é mera paranóia Adamsiana, e sim um lembrete cósmico de que nosso universo não é o único.
01 de fevereiro de 2006
O Multiverso é como um floco de neve, com milhares de realidades alternativas inescrutáveis e cheias de mistérios a serem revelados. Posso vislumbrá-las através da Esphera das Probabilidades, um artefato alienígena que pussuo há mais de oitenta anos, mas que só há poucos meses consegui fazer funcionar. Todas as vias de informação, em todas as dimensões, podem ser captadas pela Esphera e, se corretamente sintonizadas, provêm interessantes objetos de análise.
Ouço todos os noticiários radiofônicos dos anos 1940 da Terra 3. Leio todos os diários de bordo da Federação Espacial no século XXIII do universo 3683777473. Na Amerika 2941, os espanhóis são conquistados pelos Inkas. Como sei disso? A Esphera me mostrou o momento em que os sacerdotes escreveram sua História em pergaminhos de pele de llama.
É impressionante observar o presente, o passado e o futuro de cada realidade análoga à minha, pois embora existam variações gigantescas, os mesmos elementos humanos, os bons e os ruins, estão presentes. É frustrante, na verdade. Meu acesso como espectador é irrestrito, mas não posso interagir com as criaturas de qualquer uma dessas dimensões. Não posso compartilhar minha experiência depois de ver as mesmas coisas acontecerem em milhares de lugares e assim salvar vidas, como minhas contrapartes fazem em seus mundos.
Aqui, não sou nada. Meu dom de reduzir a temperatura ambiente não funciona desde 1930. Além disso, estou paralisado da cintura para baixo desde os anos 40, e tudo que posso fazer é observar, dia após dia, esse mundo estranho e muitos outros girarem sem minha interferência.
10 de março de 2006
Há alguns meses, descobri que existiam outros universos, e passei a observá-los. Minha Esphera das Probabilidades me mostrava tudo o que eu desejava saber sobre qualquer mundo, menos o meu.
Não dei muita importância ao fato, já que achei que nada que valesse a pena pudesse existir aqui. Eu estava errado.
15 de julho de 2006
Andar. Congelar. Salvar o mundo. Três coisas que não faço desde o século passado, mas que estou pronto para voltar a fazer.
Em uma realidade alternativa não muito diferente da nossa, Elias Neve (com outro nome, obviamente) é um homem extraordinário com imensos recursos, disposto a desvendar a estória secreta do mundo. Aqui, ele é apenas um imigrante dos U.S. and A. que teve a sorte de encontrar um objeto fantástico e que nunca fez nada a respeito. Mas algumas pessoas têm direito a uma segunda chance.
Enquanto Ian e eu fazíamos uma ronda por Miller, os sensores da Kamen apontaram um pico de energia imenso em uma casa de um bairro afastado. Fomos até lá, e dentro vimos um homem desmazelado, de cabelos e barba longos e brancos, que observava atentamente uma esfera que transmitia imagens de um rapaz de franja ridícula falando algo para seu irmão e pulando em seguida de um prédio alto.
Esperamos o homem dormir e investigamos o objeto. Uma Esphera das Probabilidades, projetada pela raça Tenruki (descrição cortesmente dada pelo Dr. Lloyd), que podia receber informação pura de outras dimensões e mostrá-las em sua superfície de Turilian polido. Ela era energizada por eletricidade ambiente, explicando assim o súbito pico de energia. Além disso, li seu diário, e descobri que provavelmente tinhámos mais em comum do que eu poderia imaginar a princípio.
Acordamos Neve, explicamos nossa linha de trabalho e oferecemos um lugar em nossas fileiras. Tudo o que pedíamos em troca era que pudéssemos usar a Esphera com sua supervisão. Ele aceitou na hora.
Estando de acordo, era hora de ajudá-lo como pudéssemos. Nanorobôs do século XXIV curaram sua espinha, assim como tiraram a quantidade ínfima de curare de seu hipotálamo que impedia-o de usar seus poderes.
Conseguimos reconfigurar a Esphera para mostrar informações de nossa própria realidade, para prever possíveis acontecimentos catastróficos e intervir a tempo se necessário. Projetamos as imagens em um salão também esférico, com 360 graus de visibilidade. Havíamos criado nosso próprio planetário. E era hora de começar a salvar o mundo.
