Miller, Sul de Minas. Casa de Tio Baca.
- É melhor acordar, meninos.
- O que aconteceu? – perguntou Ian, assustado com seu súbito despertar.
Tio Baca estava com o jornal Miller Commerce dobrado em uma de suas mãos. Ele abriu-o e leu o que parecia ser a principal manchete do dia:
- “Jovens meliantes matam homem em Bacamarte.” Está neste e em todos os jornais da região.
Com certa irritação (ele detestava acordar cedo), Ian sentou-se na cama e olhou para a edição do Miller Commerce que Tio Baca mostrava.
- E o que isso tem a ver com... Porra!
Ian Abercrombie viu seu rosto e o de Eric Norton estampados na primeira página.
- Como isso aconteceu? – perguntou Eric, igualmente espantado.
- Não sei. Mas suspeito que exista envolvimento do outro irmão Abercrombie. – disse Tio Baca calmamente. Ele parecia querer evitar maiores exaltações.
- Alden deve ter armado para nós. Ele com certeza pode fazer isso. – disse Ian.
- Aqui diz que a polícia tem um vídeo provando nosso envolvimento. – Eric havia pegado o jornal para ler a matéria por completo.
- Outra artimanha dele. Droga! Eu sabia que voltar ao Brazzil havia sido uma má idéia.
- Não tem apenas um vídeo, mas também digitais, DNA, tudo... Ele fez um ótimo trabalho. – disse Eric, dobrando o jornal após ter desistido de ler o resto. Ele viu as palavras “ritual satânico” tentando explicar a razão do homicídio, e não teve estômago para continuar.
- E agora? Nosso plano de combatê-lo foi por água abaixo antes mesmo de começarmos. – perguntou Ian.
- Vocês devem continuar seguindo o plano. Alden quer exatamente isso: assustá-los até o ponto de fazerem uma besteira ou desistirem.
- Acho que uma grande besteira nesse ponto seria não desistir. – disse Ian, tentando fazer Tio Baca ouvir a voz da razão.
- E para onde você iria, Ian? Vai voltar para a Europa ou dessa vez irá para um lugar ainda mais distante? – disse Tio Baca.
- ...
- Fugir não é a solução. Nunca foi. O que vocês precisam fazer é seguir minhas recomendações. Eric, a essa altura Betto já deve estar em seu encalço para esclarecer o caso. Você deve explicar tudo para ele, nos mínimos detalhes. Ele irá acreditar, e ficará do seu lado. Já alertei Guil e Ror-Rê. Eles estão a caminho.
- Devo partir agora? – perguntou Eric.
- Imediatamente. – Eric calçou os sapatos e saiu do quarto em que estavam dormindo sem pestanejar. – Ian, você fica aqui. Você precisa cuidar de suas feridas. E assistir a um vídeo.
- O que? – perguntou ele, ainda mais perplexo.
- Você precisa de orientação, Ian. O seu treinamento com Pirer foi apenas o primeiro estágio de seu aprendizado.
Bacamarte, Sul de Minas. Chefatura de Polícia.
Entrevista coletiva da agente da especial da BIA Kate Sinatra.
- Srta. Sinatra, você pode nos dar uma declaração sobre o caso Abercrombie/Norton?
- Bom dia, senhoras e senhores. Há quatro dias, um corpo foi encontrado dilacerado aqui na cidade de Bacamarte. As evidências sugeriram que a vítima havia sido atacada por um animal feroz. Vinte quatro horas depois, outro corpo foi achado, dessa vez com um braço decepado. Esse modus operandi, apesar de aparentemente incomum, foi relatado em 23 outras cidades do Brazzil nos últimos quatro anos. Duas ou três vítimas brutalmente assassinadas em um intervalo de tempo de doze a 24 horas, seguidas por um outro corpo achado com um dos braços decepados.
Acreditamos que esses homicídios façam parte de rituais satânicos promovidos por Eric Orwell Norton e Ian Miguel Abercrombie, dois jovens desajustados que haviam desaparecido há certo tempo. Ian, irmão mais novo do industrial Alden Abercrombie, sumira há cinco anos, logo depois de seu décimo-oitavo aniversário. Já Norton morou em várias cidades, sem nunca ter uma ocupação ou moradia fixa, até sumir completamente da face da Terra há cinco meses. Os desaparecimentos dos dois nos períodos dos assassinatos anteriores, aliados às provas circunstanciais que recolhemos nesses novos crimes nos fazem concluir, portanto, que eles são os perpetradores dessa série de crimes hediondos.
A BIA está, a partir desse momento, assumindo as investigações do caso Abercrombie/Norton. Nós não pouparemos esforços para esclarecer minuciosamente o que aconteceu, e capturá-los para que a justiça seja feita. Isso é tudo por hoje, obrigada.
Miller, Sul de Minas. Casa de Tio Baca.
Ian estava sentado em frente à televisão na sala de estar, boquiaberto com o que acabara de ver.
- Sou procurado por mais de cinqüenta assassinatos!
- Não se apoquente com isso, não ainda, não agora. Você precisa ver isso aqui.
- O que é isso?
Tio Baca colocou uma fita no seu quase pré-histórico vídeo cassete, e apertou play. Na tela, surgiu um letreiro em preto-e-branco que dizia “orientação”.
Em seguida, um homem asiático surgiu vestindo um jaleco branco. Atrás dele, apenas um fundo igualmente branco.
- Olá. Eu sou o Doutor Marvin Kolleritz. Este é o primeiro vídeo de orientação que você, Ian Miguel Abercrombie, irá assistir para iniciar seu treinamento nas artes de salvar o mundo.
- Como ele...
- Shh! – disse Tio Baca, extremamente concentrado.
- Primeiramente, devo dizer que esse vídeo se adapta a cada indivíduo que o assiste. Por isso, não estranhe, isso não é um engodo; é apenas a programação intrínseca dele que está sendo seguida.
Mas vamos ao que interessa. Para salvar o mundo, você precisa entendê-lo e apreciá-lo. Essa é uma tarefa extremamente árdua, pois poucas pessoas se propõem a seguir o caminho que leva a esse nível de esclarecimento. A maior parte prefere deixar-se consumir pela entropia, aguardando o fim de sua existência insatisfatória. Eles não percebem que fazem parte do mundo. Eles não percebem que o constroem a cada ação, por menor que seja. Eles não percebem que podem salvá-lo se quiserem. Você, Ian, passou tempo demais escondido, fugindo dessas responsabilidades. Se decidir continuar assim, pode apertar stop; nada acontecerá e você voltará a sua vida normal. Vou dar um tempo para que possa pensar.
Ian apenas olhou fixamente a tela, indeciso. Por fim, lembrou-se da conversa que tivera na noite anterior com Eric, e decidiu dar seu salto de fé.
- Continue.
- Muito bem. Sua primeira lição é: os universos que compõem o Multiverso não são paralelos. Eles convergem, todos os eles, em um ponto, apenas um. E esse ponto pode ser acessado por meio dos sonhos. Lembre-se disso.
Isso é tudo por hoje. Namasté. E boa sorte.
A tela ficou toda preta, subitamente. Ian olhou para o lado, e viu Tio Baca acompanhado por dois outros homens. Ambos eram baixos, mas um deles era careca enquanto o outro tinha cabelos pretos muito volumosos.
- Ian, esses são Guil – disse Tio Baca, apontando para o que era careca. – e Ror-Rê. Eles estão aqui para acompanhá-lo.
- Acompanhar-me para onde?
- Para o mundo dos sonhos. – disse Guil. – Você precisa tornar-se um onironauta antes de continuar sua jornada.
Ror-Rê colocou sua mão direita dentro de seu emaranhado de cabelos e de lá tirou uma caixa de madeira.
- Como... –perguntou Ian, intrigado com o estranho fenômeno.
- Shh... – disse Ror-Rê, tirando um pó metálico da caixa e soprando-o na direção de Ian. – Durma. Sonhe. Nos veremos do outro lado do espelho.
Colocando as coisas em perspectiva:
Recebi uma máquina do tempo do Dr. Lloyd para que pudesse revelar detalhes da Estória secreta do Brazzil e também do mundo, mas as circunstâncias me fizeram desviar um pouco de minha senda original.
Em Antarctica, quando estava prestes a viajar para o futuro e presenciar a chegada da família real Ibérica, me deparei com um super-humano pela primeira vez. Ele se auto-denominava O Contista, e tinha poderes elétricos fantásticos, podendo não só emitir raios pelas mãos como também ler informação eletrônica, sintonizando ondas de rádio, celular e o escambau. Não sei o que ele buscava, mas foi atacado por uma horda de Mah-Lokeiros, um grupo de protoanarquistas estúpidos que causam a desordem em várias partes do Brazzil. Salvei-o, pois haviam-no capturado e colocado-o em uma jaula de borracha para provavelmente ficar lá até morrer.
- Eu ia resolver a situação.
- Não precisa agradecer. Sou Eric Norton, aliás.
- Bem, senhor Norton, sou O Contista. Preciso ir agora. Adeus.
E foi isso. Descobri mais tarde que ele publicava contos incrivelmente mal-escritos em revistas obscuras, explicando sua alcunha, e depois, por meio de Joshua Betto, que ele de quando em quando tentava desmantelar focos de crime em regiões do país, o que era provavelmente o que ele estava tentando fazer em Antarctica. Mas não dá para ter certeza. Se depender de mim, nunca mais falo com aquele puto.
Já Joshua Betto eu conheci em circunstâncias menos perigosas, apesar da natureza de nossos trabalhos.
- Um Shirley Temple, mexido, não batido.
- Quem é que vem a um bar e não bebe álcool?
- Meu nome é Betto, Joshua Betto.
- Foi uma pergunta retórica, mas... Norton, Eric Norton.
- Na verdade, estamos de olho em você, Eric.
- Estamos?
- Sou um agente da BIA. Brazzil Investigation Agency.
- Sei. Mas por que sou tão interessante assim para vocês?
- Sua moto é um brinquedo peculiar. Gostaríamos que um de nossos agentes desse uma olhada nela.
- Desculpe, mas isso não será possível. Sou bastante apegado a ela.
- Desde que não crie problemas, tudo bem. Podemos guardar nossa curiosidade para depois. Mas existe uma condição para que o deixemos em paz.
- E qual seria essa condição?
- Digamos que você fica devendo uma, casó precisemos de algo que esteja na sua área de expertise.
- Parece razoável.
- Desculpe ter que fazer isso. Odeio ser o portador de mensagens como essa.
- Tudo bem, você tem que fazer seu trabalho.
- E aí, o que o traz a Miller?
- O curso de Orientação Mundial. Queria aprender a salvar o mundo, sabe como é.
- Já fiz isso.
- O curso, você diz?
- Não, salvar o mundo. Algumas vezes. De um raio da morte, de um foguete descontrolado, de um chinês com tempo livre demais...
- Legal. Tem algum conselho para mim?
- Coma seus vegetais, pratique exercícios. E mantenha-se alerta. Vigilância constante é essencial.
- Acho que já vi isso antes em algum lugar.
- Você sabe que sim. Sei que você é um fã do Harry... Aquela moça deu alguns bons conselhos. Você faz bem em segui-los.
- Obrigado, você não sabe o quanto isso significa para mim.
- De nada. Quer pegar um cinema?
- Você pode fazer isso?
- Cara, parte do meu trabalho exige uma intensa atividade social. Portanto...
- Ok, vamos assistir algo. Mas eu escolho o filme.
- Como quiser.
Ainda devo o favor para a BIA, mas eu e Joshua já não tocamos mais nesse assunto. Viramos amigos. E foi através dele que conheci Tio Baca.
- Que lugar é esse, Betto?
- Essa é a casa de Tio Baca. Ele é um expert em coisas sobrenaturais. Eu o visito sempre que dá, pois ele me ajudou muito uma vez.
- Como?
- Fui mordido por um cara que tinha dentes de prata, e sofri uma estranha intoxicação. Minha secretária me indicou Tio Baca como uma espécie de curandeiro, e lá fui eu consultá-lo, pois nada mais havia dado certo. E ele salvou minha vida.
- O que você tinha, afinal?
- Argento Toxicattus. Uma maldição normalmente associada a lobisomens, mas que acomete seres humanos de vez em quando. O cara é bom. Estranho (não faça comentário sobre os pêlos, aliás), mas muito bom no que faz. E divertido.
Não achei-o tão divertido em minha terceira visita lá, quando fui designado com a tarefa de checar se a Diretriz Monteiro havia sido violada na Floresta Warriórica. Mas as conversas com Tio Baca me deram um vislumbre de um mundo ainda maior e estranho do que eu conhecia.
Não sabia, por exemplo, que existe uma ordem de agentes sobrenaturais que patrulham as cidades em busca de criaturas perigosas, mantendo-as fora do radar das pessoas normais. Dois desses agentes, Guil e Ror-Rê, eu tive o prazer de conhecer em minha segunda visita à casa de Tio Baca.
- Ah, Eric. Você está feliz.
- Lendo minha aura, hein?
- Sempre. É inevitável, pois ela está estática.
- Conheci uma garota, sabe como é.
- Certamente. Mas entre. Quero que conheça duas pessoas maravilhosas.
- Claro.
- Esse é Guil. - disse Tio Baca, me apresentando a um jovem baixo e careca. - E esse é Ror-Rê. - disse ele, me indicando o outro homem, um afro-descendente de cabelo enorme.
- Prazer, sou Eric.
Os dois apertaram minha mão, e eu senti algo estranho quando cumprimentei Ror-Rê.
- Desculpe, é algo normal. Tenho um campo de distorção espacial em minha cabeça, que está escondido no meio dessa juba, e ele emite uma energia residual. Mas não é nada prejudicial.
- Campo de distorção espacial? Achei que vocês fossem magos.
- Primeiramente, não somos magos. Somos agentes sobrenaturais. Em segundo lugar, não produzimos magia espontaneamente, isso requer uma habilidade inata que não possuímos. Apenas protegemos o mundo de ameças que podem ser consideradas mágicas. - disse Ror-Rê.
- Sem novidade. Esse é um erro comum entre os leigos. - disse Guil.
- Como? - perguntei.
- As fronteiras entre ciência e magia são meramente normativas. Todos os fenômenos podem ser explicados das duas formas, e isso não significa que uma está certa e a outra errada. São diferentes pontos de vista apenas. - Explicou Tio Baca.
- Mas você disse que não tem habilidades inatas... e tem um sei lá o que na sua cabeça!
- Isso é uma condição adquirida. Não nasci teleportando coisas pelo meu cabelo.
- Ah, é o que isso faz.
- Mais ou menos. É como se eu cortasse uma coisa de um lugar e colasse entre minhas madeixas. Não há transporte sentido literal, pelo continuum do espaço-tempo; apenas chamo dessa maneira por razões práticas.
- Claro. E você, Guil, faz alguma coisa? Aprendida, digo.
- Não, sou apenas um estrategista. Sem truques na manga. Ou na cabeça.
Demos risada, e esse é todo o precedente que terei quando pedir para os dois me ajudarem em minha cruzada. Planejo continuar com minhas incursões no passado e futuro para levar a cabo minha missão inicial, mas não há como negar a importância de meu novo desafio: Salvar o mundo das garras de Alden Abercrombie.
Cappadohcia, Bandeirante.
- Nenhum equipamento eletrônico está funcionando em um raio de 20 metros. Espero que esteja satisfeito.
- O burburinho estava insuportável; não conseguia terminar meu conto.
- Ainda bem que não tem nenhum hospital por perto.
- Eu não faria isso. Não. Mas diga, senhor Norton, o que você deseja?
- Preciso de uma senha para ter acesso à filial da Svenson daqui.
- Você deve estar brincando. Mesmo se eu te desse a senha, existem muitos outros fatores a serem levados em consideração.
- Não existe necessidade de você se preocupar com meu bem-estar, Contista. Eu terei companhia em minha empreitada.
- E quem você pode ter persuadido para fazer tamanha besteira?
- Fui persuadido, na verdade. Mas essa estória fica para depois. Você pode conseguir a senha ou não?
- Você sabe que eu posso. Mas desejo saber mais sobre suas intenções em troca do favor.
- Ouvi boatos de que existe um dossiê circulando pela Svenson sobre Alden Abercrombie, um... conhecido meu. Ele supostamente contem informações que julgo serem necessárias para um pequeno projeto ao qual estou me dedicando.
- Por que uma companhia como a Svenson quer informações sobre um peixe pequeno como Abercrombie?
- Sua conclusão é fruto da sua limitada capacidade de ver as coisas, Contista. Tudo que interessa saber sobre Abercrombie não passa por qualquer canal de informação que você possa controlar.
- Ofensas não ajudarão você a chegar a lugar algum.
- Não deveria me ofender com esses joguinhos seus, então. Você me deve por ter salvado sua vida em Antarctica.
- A morte parece mais aprazível neste momento. Mas vou conceder esse favor, embora não veja sentido nisso. 4815162342. Essa é a senha. Boa sorte com os seguranças, cães de guarda e armas laser. Levarei flores no seu funeral.
- Desde que você não leve um desses contos de merda, pode ser. Passar bem.
Miller, Sul de Minas.
Quarto de hóspedes deTio Baca.
- Escapamos de uma bela enrascada, hein? -disse Eric Norton.
- Mas entramos em outra bem maior. Não sei se quero fazer isso, entende? - disse Ian Abercrombie.
- O que? Lutar contra seu irmão?
- Exatamente. Eu saí do Brazzil para nunca mais ter que me envolver nos negócios da família, e agora estou enfiado até o pescoço neles.
- Pelo que entendi, você não quis compactuar com o jeito deles de fazer negócio. Quer forma melhor de manter seus princípios?
- Minha principal meta era nunca mais ter que sequer ouvir falar deles. Em minhas primeiras horas aqui, não só fui torturado por um capataz com nome idiota do meu irmão como também me envolvi em uma conspiração que envolve sacis, curupiras e sei lá mais quais criaturas folclóricas. Você realmente acha que estou satisfeito, ou mesmo disposto a fazer isso?
- Ian, eu não sei se o que estamos fazendo é uma boa idéia ou não, mas sei de uma coisa: esse é um trabalho de duas pessoas, pelo menos. Eu não posso fazer isso sozinho, não quero.
- Mas você terá outros ao seu lado, como o Tio Baca, ou o tal Jock Betto...
- Joshua, na verdade.
- Enfim, eu sei que a pintura diz ques estamos destinados a lutar contra meu irmão, mas eu não acho que meu destino está completamente selado.
- Não é apenas por causa da pintura que você precisa fazer isso. Você não sente algo dentro de você, algo que diz que podemos fazer a diferença?
- Não, não de verdade.
- Então o que você está fazendo aqui, Ian? Por que você voltou? Por que você acha tão difïcil acreditar?
- Por que você acha tão fácil?
- Nunca foi fácil! – disse Eric, emocionado. – Isso é um salto de fé, Ian.
Houve um silêncio desconfortável, que perdurou alguns minutos. Mesmo relutante, Ian acenou positivamente com a cabeça.
- Vamos fazer isso, então. Mas você tem que me prometer uma coisa:
- Pode dizer.
- Sem mais esse tipo de viadagem, ok?
- Ok.
- Fique mais um pouco, Joshua...
- Desculpe, querida, mas tenho que ir. Minha chefe está chamando.
- A essa hora?
- Não há nada que eu possa fazer. Adoraria ficar aqui e massagear seus pés como havia prometido, mas o dever me chama.
- Ó, Joshua, beije-me mais uma vez, pelo menos!
Os dois beijam-se, e Joshua sai do quarto logo em seguida para pegar o elevador.
Já no hall de entrada, Joshua dirige-se até a recepção.
- Quero deixar a diária do quarto 42 paga até amanhã. Ah, e por favor mande uma garrafa de seu melhor champanhe para lá.
- O quarto está no nome de J. Betto?
- Sim. Betto. Joshua Betto. Agora, com licença, mas eu tenho um mundo para salvar.
Mudei de casa neste último fim-de-semana, e agora estou solo. Podia ser um pouquinho melhor, mas também muito pior.
Trabalho, aulas, namoro, produção capenga de textos ainda mais capengas. Não sei mais o que é coçar o saco. Quer dizer, não figurativamente... Scratch, scratch.
Deal with it.
Rock´n´roll.
PS: Nave Azul é o nome da minha casa, e, como não podia deixar de ser, é uma referência. Do your research.
Miller, Sul de Minas.
Eric estava pilotando sua Kamen pelas ruas de Miller com Ian Abercrombie na garupa, em busca da casa de Tio Baca.
- Como você...? – perguntou Ian, referindo-se à milagrosa virada de mesa ocorrida momentos antes.
- Trouxe a moto usando um código de emergência. Depois, foi só desamarrar as cordas e pegar as espadas da Caixa Elétron. – Eric virou-se rapidamente e perguntou a Ian: - Tem certeza que não quer colocar uns curativos em suas unhas, pelo menos?
- Tenho. – disse ele, embora seus dedos ainda estivessem cobertos de sangue. - Mas como você se desamarrou?
- Segredo de profissional. Minha vez de perguntar: de que colar seu irmão estava falando?
- Minha mãe tinha um colar que nunca usava, mas que por algum motivo guardava a sete chaves. Alden sempre foi fascinado por ele. E isso significa que, se ele o quer tanto, deve ser por alguma propriedade sinistra que ele possui.
- Além disso, por que existe essa animosidade toda entre vocês?
- Porque nós nos odiamos desde que éramos crianças. Você tem que entender, minha família sempre foi qualquer coisa menos normal. E por isso eu fugi, no momento em que completei dezoito anos. Achei que Alden iria me deixar em paz, mas como eu roubei o colar, aparentemente isso não irá acontecer.
- Por que você roubou o colar?
- Porque era o único elo que eu tinha com minha mãe desde que ela morreu. Ele deveria ter sido destruído, na verdade.
- Então sua mãe não queria que ninguém além dela o possuísse. Não pareceu uma boa idéia tê-lo roubado, então.
- Provavelmente não, mas eu não estava ciente disso na época. Mas ele está bem escondido; Alden não conseguirá acha-lo.
- Bom, bom. – Eric parou a moto. - Chegamos.
Estavam em frente a um casarão antigo, e tudo lá dentro parecia estar escuro.
- Essa é a casa do tal Tio Baca? Quem é ele, afinal?
- Ele é um Wuki. Isso significa que, depois de ter sofrido seqüelas de uma maldição, ele se tornou um especialista em magia. Mesmo que isso não tenha ajudado muito (não faça comentários sobre os pêlos), ele pode nos auxiliar com o seu problema.
- Pêlos? – perguntou ele, mas não ouviu resposta. Eric estava olhando para a porta, que havia sido aberta.
- Tio Baca?
Um homem quase completamente, mas não exatamente, coberto de pêlos castanhos saiu da casa, e fez um gesto com a mão para que entrassem.
- Entrem. Vocês devem ter passado por maus bocados.
- Como você soube que estávamos chegando? – perguntou Ian, esperando encontrar com mais outra pessoa que via o futuro.
- Minha bola de cristal... ou talvez por esse idiota sempre cantar pneus na curva.
- Desculpe. – disse Eric, ciente de suas limitadas habilidades como motorista.
- Tudo bem. Como têm passado, senhores?
- Estamos mais ou menos bem, como você deve ter notado. Esse é...
- Ian Abercrombie. Adoro decifrar auras de pessoas introspectivas.
- Minha aura disse meu nome?
- Ela não “disse”. Nossas auras contêm tanta informação... Você só precisa saber... lê-las. Mas elas são apenas a capa de nossos livros biomágicos. Podem dizer nosso nome ou nossas intenções superficiais, até mesmo dar pistas sobre nosso caráter, mas nunca mostrar a essência de cada um. Vocês estão aqui com um propósito bem definido, mas vão conseguir muito mais do que poderiam querer.
- Como assim?
- Eric, minha dica estava correta? – desconversou Tio Baca.
- Sim, mas havia chegado tarde demais. Um homem branco tem violado a Diretriz Monteiro, mas não havia mais pistas de seu paradeiro. Ele cobre seus rastros muito bem, segundo os curupiras.
- Ainda não está óbvio para vocês. Não, talvez não. Ian, vamos cuidar de seus ferimentos.
Ian fez menção de abrir a boca, mas Eric balançou a cabeça negativamente e fez um gesto com os dedos indicando que depois perguntariam. Os dois jovens estavam perplexos, mas seguiram Tio Baca até uma sala nos fundos da casa cheia de potes de vidro, gaiolas e plantas.
Tio Baca olhou Ian de cima a baixo e mandou-o sentar.
- Suas mãos conheceram terra, Ian. Você sabe o que é um carrapato, imagino.
- Sei, claro.
- Pois bem. Você tem um desses. Ele é mágico. Quando você entrou no território Brazzileiro, seu irmão recebeu um aviso de um outro carrapato, incrustado nele ou em outra pessoa. Quem sabe lidar com magia consegue obter sua localização precisa em questão de segundos.
- E você pode matar esse... carrapato?
- Sim, eu posso. Mas não vou fazê-lo.
- Por que?
- Porque podemos saber, em contrapartida, a localização de seu irmão quando quisermos. O que posso fazer por você é tirá-lo de seu ombro direito, e colocá-lo em uma de minhas cobaias.
- Mas ele não poderia saber que ela está aqui e vir atrás de você?
- Não, minha casa é protegida por um campo de distorção strangeliano. Ninguém pode rastrear qualquer magia que faço aqui e nem, portanto, seu carrapato. Mas vocês ainda não fizeram a ponte...
- Que ponte, Tio Baca?
- Muito simples, Eric. O seu homem branco, o violador da Diretriz Monteiro, é o irmão de Ian.
- Como você sabe disso?
- Por que auras deixam traços que também podem ser observados. Traços que são transmitidos e retransmitidos. Você, Eric, tem duas impressões deixadas por Alden MacGregor Abercrombie. Uma pálida e outra contundente. A primeira foi adquirida em sua visita à Floresta Warriórica. A segunda, há poucas horas atrás.
- Meu irmão está montando um exército de criaturas sobrenaturais?
- Sim, e isso é algo terrível. Ele está subvertendo a natureza dessas criaturas e usando-as para alcançar seus objetivos mesquinhos. O efeito disso será extremamente predatório para todos nós, a não ser que vocês o impeçam.
- Nós?
- Sim, vocês dois estão destinados a isso, e você sabe.
- O seu quadro... – disse Eric. – Faz sentido, então.
- Meu não. De Pirer.
- Pois é. Eu disse que vocês iriam conseguir muito mais do que queriam. E sei que isso é difícil. Mas não estarão sozinhos. Eric, precisamos agir. Você precisa contatar Joshua Betto. Ele pode cuidar das investigações por vias “normais”.
- Investigações? – perguntou Eric.
- Tenho certeza que as conexões escusas de Alden ultrapassam as barreiras da Floresta Warriórica.
- Quem é Joshua Betto? – perguntou Ian, cada vez mais perdido.
- Um espião da BIA. Brazzil Investigation Agency. – explicou Eric.
- Também devemos falar com Guil e seus parceiros.
- Um agente sensitivo. – disse Eric, antecipando a pergunta de Ian. – E não, ele não trabalha para nenhuma organização. Mas eu mal conheço o cara...
- Então é hora de forjar mais esta aliança. – disse Tio Baca, referindo-se à recém-formada aliança entre os dois jovens. – Agora, deixe-me trabalhar.
Ele sussurrou algumas palavras e retirou um fio de energia verde amarelada do ombro direito de Ian, e colocou-o em seguida em um morcego. - Pronto, agora descansem um pouco. Amanhã será um dia cheio para vocês.
Ian animou-se com a possibilidade de ser resgatado ao ver a reação de Tolo, talvez por seu amigo Pirer, que poderia tê-lo seguido por precaução. Mas, momentos depois de terem saído, Tolo e Alden voltaram com pequenas caixas de papelão coloridas.
- Tinha esquecido que os escoteiros vinham vender os biscoitos hoje. - disse Alden, abrindo uma das caixas e mordiscando um biscoito em forma de girafa.
Ian estava boquiaberto.
- Você compra biscoitos da porra dos escoteiros?
- Claro, irmãozinho. Que tipo de monstro você acha que eu sou para deixar de ajudar moços tão bons que lutam por uma causa tão nobre?
- ...
- Vamos voltar à tortura? Tolo?
- Claro, crunch crunch, senhor.
Tolo apanhou dois objetos de dentro de uma caixa, e mostrou-os a Ian.
- Cabo de vassoura ou saco plástico?
Kabum! A porta da cela foi arremessada para dentro da cela, acertando Tolo em cheio.
- Nenhum, Tolo. - disse Eric Norton, segurando uma katana em cada mão.
- Que porra..... - disse Alden, tentando levar sua mão direita para debaixo de seu paletó. Eric, no entanto, aproximou-se dele rapidamente e encostou o fio de uma das espadas na mão boba, impedindo-a de agarrar a arma no coldre.
- Explosivo plástico, caixa Elétron e uma moto legal pra caralho. Ah, e a possibilidade de parar o tempo. Tá explicado que porra foi essa?
Alden olhou para seu lado esquerdo e notou que Ian já estava desamarrado.
- Quer ter a honra? - perguntou Eric a um alquebrado Ian.
- Claro.
Ian socou o rosto de seu irmão com toda força que pôde, o que foi suficiente para fazê-lo cair desacordado.
- O que fazemos agora? - perguntou Eric, colocando suas duas espadas nas bainhas.
- Preciso saber como meu irmão me achou tão rápido.
- A Kamen não acusou nada, o que significa que deve ser...
- ...magia.
- Exato. Vamos ter que descobrir o que é isso. É hora de visitar Tio Baca. Cuidaremos de seu irmão depois.
- Pode ser. Só uma coisa: - Ian virou-se e chutou Alden na virilha. Em seguida, pegou uma das caixas de biscoitos e caminhou para fora da cela. - Vamos dar o fora daqui.
- Segure no guidão da Kamen. Vamos voltar para Miller. Até a vista, Cowville.
Cowville, Sul de Minas.
Casa de Alden, cela número 2.
Ian Abercrombie estava amarrado à uma cadeira, acompanhado por seu irmão e um de seus operativos.
Tolo começou a tortura esmurrando o rosto de Ian e arracando suas unhas. Logo depois, inseriu agulhas grossas na carne exposta, dilacerando assim terminações nervosas que fizeram o irmão menor de Alden urrar de dor.
- Ainda não quer falar, irmãozinho?
- Foda-se!
Tolo dessa vez chutou-o na virilha. Ian gemeu, mas depois começou a gargalhar forçosamente.
- Tá gostoso, Tolo, faz mais uma vez!
- Você só precisa me dizer onde está o colar. Nada mais em você me interessa. Posso muito bem te soltar e deixá-lo voltar para a Europa, ou seja lá onde você estava nesse tempo todo.
- Claro, isso vai acontecer. Vai me deixar voltar no seu pégaso particular?
Mais um chute, dessa vez no peito.
- Já vi cavalos alados. Mas eles não brancos com asinhas de pombo. Parecem mais seres reptilianos com asas de morcego. Mas estou digredindo.
- Para que você quer o colar, Alden? Ele não serve para nada, a não ser que você queira usar um bonito adereço.
- Vou te contar, mas só para cultivar nosso espírito de camaradagem. Eu já possuo a tiara. E preciso da outra parte do conjunto.
- A tiara não fica bonita com o seu atual colarzinho rosa. Tadinho...
Soco no estômago, mas dessa vez dado por Alden.
- Não imaginava que você fosse tão estúpido. Me dê a porra da localização do colar!!!
Alden não costumava perder a calma facilmente, o que causou profunda surpresa a Tolo.
- Está tudo bem, senhor? - perguntou o lacaio com imensa cautela em sua voz.
- Claro. - disse Alden, recompondo-se. - Diga onde o colar está ou você vai sofrer tanta dor que irá desejar morrer.
- Dor? Você quer dizer isso aqui? Parece cócegas.
Alden começou a esmurrar seu irmão repetidamente, até que foi interrompido.
Ding Dong.
- A campainha, senhor.
- Veja pela câmera de segurança quem está aí.
Tolo saiu da cela. Alden andava para frente e para trás, ansioso.
- Escute, Ian, sejamos racionais. O que você quer pela informação? Não precisa mais haver sofrimento para você.
Ian cuspiu sangue e uma parte de um de seus dentes da frente no chão, uma espécie de insulto débil mas certeiro.
- O colar deve ser muito valioso para você, Alden, e é exatamente por isso que você não vai te-lo. Já deu para perceber que você é um crápula, muito mais do que você já era, e só deus sabe o que você está planejando. Seja lá o que for, não farei nada para ajudar.
Alden estava pronto para desferir outro golpe em Ian quando Tolo entrou navamente portando um semblante extremamente preocupado, quase selvagem.
- Eles estão aí, senhor!
Limões em limonada. Não estou fazendo nada de especial ou extraordinário, que não seja minha obrigação, mas mesmo assim me sinto bem para caralho. Mas tenho que tomar cuidado. Estou começando a gostar de Marx.
Constatação: Não posso viver sem os outros, ou em mar sem fim de simplicidade. Hora de virar adulto em mais um quesito.
Novas empreitadas me esperam; momma´s b-day is coming and I am expecting Mr. Abercrombie for a visit. Será um bom mês. Ou não.
Merdas de incertezas. O mundo dá voltas demais.
Deal with it.
Rock´n´roll.
Élcio era de São Sebastião do Paraíso, MG. Ele estudava Serviço Social na Unesp Franca, mas não dava a mínima para o curso. Era torcedor do Guarani. Não sei muito mais sobre ele, pois apenas tivemos conversas esporádicas, mas engraçadas e honestas, o que é muito mais do que muitas pessoas têm na vida.
Lamento muito não te-lo conhecido melhor, pois agora ele partiu para sempre, e tudo que resta são lembranças de sua camaradagem e ótimo senso de humor.
Espero que as gatinhas lá de cima sejam mais fáceis do que aqui, Élcio. Elas têm que ser.
A gente se vê depois, quando essa grande brincadeira terminar.
Scotsman Mccregor Abercrombie. Esse era o nome do pai de Alden Abercrombie. Um rico industrial escocês, Scotsman atuava no ramo de bebidas alcoólicas.
Em uma viagem ao Brazzil, conheceu Laura Fitch, uma modelo brazzileira. Os dois se apaixonaram, casaram, e tiveram dois filhos.
Essa, no entanto, não é uma estória de Alden, o filho mais velho do casal. Esta é uma estória sobre Ian Abercrombie, a ovelha negra.
Educado no Brazzil, Ian nunca demonstrou interesse nos negócios da família. Ao completar dezoito anos, viajou de carona pela Europa, sem autorização ou os recursos do pai. Para conseguir dinheiro, trabalhava temporariamente em algum restaurante ou em um posto de gasolina ao longo do caminho.
Ian dormia em albergues ou em acampamentos; não tinha cartão de crédito, e sempre apresentava documentos falsos em suas viagens. Todos os seus passos eram meticulosamente calculados para que não fosse localizado pelo pai ou irmão.
Enquanto Alden começava a tocar as indústrias Abercrombie e a explorar seus contatos com o sobrenatural, Ian fugia de qualquer responsabilidade, mantendo uma vida cada vez mais errante.
Já não trabalhava mais de um dia em um mesmo lugar e não falava a não ser que fosse absolutamente necessário. As noites significavam pouco descanso e muitas horas de estrada. Até que um dia deparou-se com um homem de cabelos pretos longos, que caíam insistentemente sobre seus olhos.
Era noite; ele estava na estrada 54, que ligava Londonlondon a Yorkinxaier. O homem estava ajoelhado, observando suas duas mãos. Mesmo desconfiado, Ian parou a moto e se dirigiu ao homem:
- Está tudo bem?
O homem ignorou a pergunta. Ian se aproximou um pouco mais.
- Você precisa de ajuda?
- Tinta.... preciso de tinta. – disse o estranho homem.
- Acho que... devo ter algo aqui...
Ian não sabia porque estava procurando tinta em sua mochila, afinal de contas o homem parecia estar bem. Mas um instinto poucas vezes antes manifestado, o mesmo que o impulsionou a abandonar sua família em busca de uma nova identidade, dizia que aquele pedido era importante, talvez até crucial. Ele achou, enfim, um pequeno pote de tinta nanquim, que ele havia furtado em uma loja em Parrí.
- Bem, eu tenho isso aqui.... – disse ao homem, que imediatamente pegou o pote e enfiou o dedo nele para começar a pintar algo no asfalto.
Após alguns minutos, uma imagem começou a se formar. Havia dois lados, separados por notas musicais. No lado direito, um homem parecia liderar um exército de criaturas disformes, de todos os tamanhos possíveis. Ele apontava para o lado esquerdo, como se estivesse prestes a mandar seu exército atacar. Do outro lado, havia dois homens: ambos, pelo que o desenho parecia mostrar, tinham um “S’na cabeça. Logo atrás deles havia figuras gigantes, como se fossem dragões. Nenhum dos dois apontava para o lado direito, mas eles estavam em posição de alerta, como se prontos para uma batalha.
Ian ficou ainda mais estupefato quando percebeu que os olhos do homem estavam completamente brancos enquanto ele pintava.
De repente, os olhos do homem ficaram castanhos, e ele parou de pintar. Boquiaberto com o estranho fenômeno, Ian apenas pôde perguntar:
- Quem é você?
- Meu nome é Pirer. Obrigado pela tinta.
- O que diabos é isso?
- É o futuro. Ás vezes... ás vezes eu consigo ver o futuro, e então eu posso pintar aquilo que vejo... Isso é algo que vi enquanto voava, e então eu parei por que já não enxergava mais nada além disso.
- E... cadê o seu avião? Ou helicóptero, sei lá.
- Eu não preciso disso. Posso voar sozinho.
- Claro. E eu sou o rei da Scotlend. Muito prazer.
Pirer, no entanto, não se abalou com o tom sarcástico de Ian. Apenas flutuou por alguns instantes, para provar que não estava brincando.
- Porra, isso é fantástico!!!
Pirer ignorou Ian, e passou a analisar a pintura no chão.
- Uma batalha... A maior de todas, talvez... Ideais em conflito, traição... o destino de muitos será decidido nessa luta.
- Mas quem é que...
- Ainda não sei. Esses monstros... Talvez a luta ocorra no passado...
- No passado? Não era o futuro que você pintava? E será isso seria era dos dinossauros?
- Pode ser...
- E que monstros são esses? Não parecem dinossauros... Esse parece mais um...
- Lobisomem. Pode ser. Existe muito mal nesse mundo, não ficaria surpreso se mais esse tipo de criatura também afligisse as pessoas. Na verdade, já ouvi rumores sobre lobisomens aqui na Europa.
- Essa é a primeira vez que falo com uma pessoa em dias, e está sendo a conversa mais estranha de toda a minha vida, mas mesmo assim faz tanto sentido... Sempre achei que havia algo de estranho no mundo, algo que não pudesse ser facilmente explicado.
- Então você também sente algo que sempre senti. Talvez tenha sido o destino que nos colocou juntos. Você estava aqui por uma razão, e talvez tenha sido para você que eu pintei isso.
Ian surpreendeu-se: não esperava fazer parte de coisa alguma. Esperava apenas que o homem que voava dissesse algo como “pois é, verdade” e depois fosse embora, deixando ele em paz. Toda a curiosidade antes manifestada por ele evaporou-se em um instante.
- Escuta, isso tudo foi uma enorme coincidência. Você estava voando, eu estava em minha moto, você pousou, eu parei, você fez uma pintura idiota no chão e nós conversamos a respeito. Nada mais. Boa sorte e adeus.
- Não. A cada momento me convenço mais de que é você quem eu vi. Você, com essa cicatriz...
- Que cicatriz?
- Ela tem a forma de “S”. Vocês dois têm...
-Nós dois quem?
- Você e ele... Não sei dizer quem exatamente. Mas ele será seu amigo, e você o dele. Serão vocês que lutarão para salvar o mundo.
Pirer, naquele momento, se calou. Se eles salvariam o mundo, o que ele faria? Por que ele não participaria daquela batalha épica? Será que...
- ... eu morro?
- Não sei, meu chapa, mas você está meio louco se acha que eu vou ter amigos e lutar para salvar o mundo.
Pirer recompôs-se. Se ele estava destinado a não participar da batalha, que fosse.
- Talvez não agora, mas um dia sim. Se for esse o caso, se esse for mesmo seu destino, é melhor estar preparado.
- Desculpe, mas isso não tem nada a ver comigo.
- Tem sim. Seu negócio, a partir de agora, é salvar o mundo. Vamos começar seu treinamento.Estava quente em Jira. Os pernilongos eram do tamanho de cachorros pequineses, e as baratas ainda maiores, mas eu não pareci despertar muito interesse. Não deles, pelo menos.
Um velociraptor sentiu minha presença, e alertou seus amigos para uma emboscada em busca de carne nova. Como eu soube disso? Tradutor Universal Transtemporal. Nunca saia de casa sem ele. Obrigado, Professor Lloyd.
Usei um Feiser para espanta-los. Baixa intensidade, apenas para machucar um pouquinho. Dois deles, no entanto, já estão devidamente miniaturizados e presos na Caixa Elétron. Um macho e uma fêmea. Ele tem uma plumagem colorida para atrair as garotas, mas devidamente furtiva em momentos de caçada.
Ótima aquisição para meu projeto. Um Saurológico escondido no meio de Miller, justamente na Avenida Afonso e Afonso, uma das mais movimentadas da cidade. Afinal, se é para esconder uma coisa, deixe-a o mais evidente possível. Mas meus dispositivos dimensionais darão conta do recado.
Depois disso, mais outras capturas. O tiranossauro ficou do tamanho de uma lagartixa antes de eu nocauteá-lo. Braquiossauros, Iguanodontes, Tricerátopes, entre outros, todos a caminho do presente. É claro que as baratas e outros insetos tamanho-família foram para a coleção, a título de curiosidade.
Uma vez que estava tudo embalado, de malas prontas para voltar para o presente, senti um tremor procedido por um clarão no céu. As proteções mágicas da ilha não deixavam o calor penetrar, mas o oceano começou a ferver. Eu estava testemunhando o fim dos dinossauros, de camarote.
Fiquei feliz a princípio. Eu era a única pessoa em todo o planeta que poderia dizer que havia testemunhado aquele incrível acontecimento, e que finalmente o mistério havia sido resolvido: fora um meteoro que causou a extinção das maiores criaturas que já caminharam sobre a Terra.
Mas depois de alguns minutos a observar o céu em chamas e sentir sob meus pés uma fração do impacto, lágrimas caíam dos meus olhos. Era muito triste sentir a agonia, mesmo distante, de milhões, talvez bilhões, de seres vivos.
Me recuperei, ciente de que tinha que completar minha missão. Fora Lloyd que disse: vale a pena lutar pelo futuro. Pensei que também valia a pena lutar pelo passado, afinal de contas. Olhei a Caixa Elétron, cheia de amostras da vida ancestral, minha própria arca, e apertei o botão de minha máquina do tempo para voltar para casa.Alguns dos meus escritos sobreviveram ao julgamento dos dias e da crítica, agradaram o Professor Lloyd em um futuro distante, e justamente por isso eu ganhei uma máquina do tempo.
- Aqui está, senhor Norton. Uma máquina do tempo novinha em folha. Você poderá assistir à destruição de Plutão em 2986, à descoberta da América em 1143, e até mesmo ao momento de seu nascimento! Emocionante, não?
- Sim, isso é pasmante, mas eu achei que...
- Ah, a questão de Plutão. Ele foi re-nomeado planeta em 2087 pela NU(pero no mucho)O.
- Eu estava falando da América. Ela não havia sido descoberta no século VXII pelos viajantes do Aprilspring?
- É um erro comum. Não, ela foi descoberta por alienígenas. Na verdade, quem vai esclarecer esse pequeno equívoco da Estória será...
- Quem?
- Você, na verdade. Meu papel aqui é prover os meios necessários para que você faça essas descobertas. Seus relatos sobre suas viagens e aventuras inspiraram bilhões de pessoas no meu tempo. E um fragmento, um simples fragmento que apenas eu consegui obter, esclareceu uma dúvida que muitos tentaram, em vão, solucionar: quem havia te dado a máquina do tempo.
- E essa pessoa, obviamente, é você. Mas que de que fragmento você está falando?
- Deste. Lembre-se de relatar tudo. Que eu sou o Professor Michael Lloyd, vindo de um futuro distante, pelo qual vale a pena lutar. Que eu tenho dois filhos, William e Theodore. Que sou casado com Mary, a única mulher que já amei. E ainda que, após esta viagem de conseqüências fantásticas, eu terei contribuído para salvar o mundo diversas vezes.
- Quer dizer que eu vou ajudar a salvar o mundo? Mas eu sou apenas um fã de Harry...
- Não irá apenas ajudar! Você salvará o mundo. Sozinho, muitas vezes. Você pode não se dar conta agora, mas ser um fã de Harry ****er será algo determinante para os dias vindouros.
- Será que eu posso usar a máquina para comprar um exemplar do sétimo livro da série? Ele sai apenas em 2007...
- Nada disso. Minha missão termina exatamente neste último parágrafo, e eu darei a primeira pista de onde, e quando, você deve ir. Vá para o Período Cretáceo, em uma ilha do Pacífico chamada Jira. Entre pela baía norte, e diga “Go”, além do nome do local. É a senha para quebrar as barreiras mágicas que o protegem. Use a Caixa Elétron para trazer ao presente cem espécies das criaturas que você irá encontrar lá. Indivíduos machos e fêmeas. Leve-a para um Estado chamado Sul de Minas, no Brazzil, e estabeleça-se em uma cidade bizarra chamada Miller. O lugar é cheio de fantasmas e o céu é lindo. É lá que você vai se encontrar.
Referências são o cerne de minha vida, e conseqüentemente de minha obra. A Estória do Brazzil, portanto, surgiu a partir e através de múltiplas homenagens feitas às minhas fontes de entretenimento favoritas. Para esclarecer alguns pontos tidos como nebulosos, resolvi fazer esse guia para a melhor compreensão de meus ávidos leitores, que não estão tão acostumados à verdadeira enxurrada de referências feitas. Falta Contexto? Pois aqui está ele.
You Met Me at a Very Strange Time in My Life
O embrião de tudo.
O título é a última frase do filme Clube da Luta, de David Fincher. Ela é proferida pelo personagem Tyler Durden. Dizer mais estraga o filme para as três pessoas que ainda não assistiram.
O Presidente do Brazzil de 2025, Érico Padilha, é um colega de faculdade que se porta da maneira mais cortês e provavelmente falsa possível, mas que é também muito carismático e com ambições políticas claras desde agora. Um dos únicos personagens que não tem pseudônimo.
A alusão ao mundo terminar em 2012 foi feita por causa da amplamente conhecida profecia Maia, que afirma não haver data posterior a 21 de dezembro desse ano vindouro. Isso segundo o calendário deles, é claro.
Quanto à cicatriz e ao Harry mencionado, obviamente ambos vêm de Harry Potter.
A estória foi escrita ás vésperas do lançamento do sétimo e derradeiro livro da série, e na época o grande questionamento de fãs como eu era se ele sairia vivo depois de tudo.
Devo ainda lembrar que meu intuito inicial era apenas escrever sobre meus planos para um fim-de-semana prolongado, mas que foi modificado no meio do caminho pelo meu desejo de escrever algo que fosse engraçado e deixasse de lado o chororô que ás vezes tomava conta de meus escritos. Parece que valeu a pena mudar de idéia.
This... Is What You´ve been Waiting For
Aqui a coisa toda começa com um diálogo sem muitas explicações, mas fica claro que é entre um político (Érico Padilha) e um homem que tem superpoderes (Pirer Pet***li). Padilha é um conhecido do primeiro conto, enquanto Pirer é baseado no personagem de Heroes, Peter Petrelli, que tem os mesmos poderes e penteado emo, com as franjas ridículas e tudo mais.
Mais além, o cientista louco que procura por meteoros em um episódio de Chapolin faz uma participação relâmpago. Padilha se refere a ele como se fosse o ator, já que ele menciona que “... ele tem tantos nomes...”. Ramón Valdés fez inúmeros personagens na série, e foi o Senhor Madruga (o trambiqueiro que deve 14 meses de aluguel) em Chaves. Ele morreu em 1988, mas tenho certeza que isso foi apenas uma maneira de distrair a atenção do grande público para que ele pudesse ter uma vida tranqüila em outro lugar.
18 Horas Atrás
Alden é o nome de um personagem do livro “O Americano Tranqüilo”, de Graham Greene. Sempre gostei desse nome, e pensei em fazer uma aliteração com outro sobrenome que eu gosto, Abercrombie. No início, Alden seria um herói mais ou menos como Elijah Snow, do Planetary, um colecionador de coisas estranhas que no fim do dia ajudaria as pessoas. Mas os planos mudaram um pouco, como se sabe.
A cidade Bacamarte veio espontaneamente, sendo que a única possível referência seria o desenho Bacamarte e Chumbinho, mas não foi o caso. Já Sul de Minas, que seria apenas uma sub-região do estado, virou um independente em meu mundo. Isso porque Franca, a Miller do Brazzil, fica ao norte de São Paulo, quase na divisa com Minas Gerais. Mas a cidade tem muito mais características mineiras do que paulistas, portanto achei apropriado criar uma identidade única para essas pessoas bizarras que tanto gosto em meu universo.
O lobisomem. Em vez de usar a abordagem clássica da bala de prata que o elimina, usei a que Monteiro Lobato descreve em “O Saci”, mas sem a estória de “pelo para dentro, carne para fora”, e a coisa do sétimo filho. O lobisomem Brazzileiro é acometido por uma maldição ao ser mordido por outro e sobreviver, e tem essa maldição parcialmente desfeita ao ter um de seus membros extirpados. Balas de prata podem feri-lo, mas não mortalmente.
Por fim, menciono o fato de Alden ser capricorniano. Queria usar a idéia de “Bebê do Século” (Indivíduos especiais que nascem em primeiro de janeiro de algum ano 00) de Planetary, mas um pouco mais contemporâneo. Deixei-a de lado, parcialmente, pelo menos por enquanto. Veremos que Alden é um cara especial, mas muito mais cruel do que um Bebê do Século seria.
The Mayas Aren´t Allright
O título faz referência a duas coisas: primeiro, à profecia Maia que diz que o mundo acabará em 2012, idéia usada anteriormente. Segundo, à musica “The Kids Aren´t Allright” , do Offspring. Enquanto na música o título remete ao bem-estar das crianças, no meu quero dizer que os Maias não estão de todo certos.
O emissário de uma realidade alternativa, Riro, é baseado na versão futurista do personagem Hiro, De Heroes. Ele avisa para o personagem Peter Petrelli, no episódio 105 “Hiros” sobre um acontecimento chave para a trama, e fiz com que ele fizesse algo parecido na minha estória. Ela se passa antes de You Met Me at a Very Strange Time in My Life, e é por isso que o personagem desta fica tranquilpo quando seu Eu do futuro o avisa que Riro e os Maias, afinal, estavam errados.
Devo lembrar que o Saurológico mencionado aparece em outra estória ainda não publicada e sem título, que narra a primeira aventura de Eric Norton com sua máquina do tempo e é importantíssima para a compreensão de todo o resto.
2020 é uma data já usada em outros títulos, e achei interessante usá-la, mesmo que aleatoriamente. O céu púrpuro desse ano é uma referência ao episódio 223 de Lost, Live Together, Die Alone, em que uma im(ex)plosão na escotilha causada por John Locke e Desmond David Hume muda os rumos dos acontecimentos na ilha.
Lloyd, mencionado no começo, é um análogo de Doc Brown, o cientista de “De Volta para o Futuro”, mas usando o nome do ator que o interpreta, Chistopher Lloyd. É ele que dá a máquina do tempo a Eric Norton.
Snows, o presidente eleito em 2010 e que possivelmente seria reeleito em 2014 é Aécio Neves.
Há também um elemento de Superman aqui. Quando Riro avisa que Norton só encontrará poeira estelar se viajar para o futuro, estava pensando em Superman, durante a saga Zero Hora, quando ele afirma ter viajado a Krypton e visto apenas aquilo.
Uma última coisa, um pouco mais sutil: a frase “quase completamente, mas não exatamente” foi parafraseada diretamente do Guia do Mochileiro das Galáxias, de Douglas Adams.
Welcome to Miller, Mr. Abercrombie
Esse é o texto que narra o primeiro contato entre os personagens centrais Eric Norton e Ian Abercrombie, o irmão mais novo de Alden.
Dessa vez comecei com uma explicação geográfica tosca, rebatizando vários estados brasileiros e ignorando completamente a divisão de regiões oficial, utilizando uma um pouco mais lógica. Pantanal é a área que compreende Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, Bandeirante é São Paulo, Santa Fair´s State é a Bahia, Holy Ghost é o Espírito Santo e Antarctica é o Rio de Janeiro.
O problema é que boa parte da informação necessária para entender a trajetória de Ian está em outra estória não publicada, sobre seu encontro com Pirer na Europa. Basta saber, no entanto, que Ian é a ovelha negra da família, e saiu bem cedo de casa para viajar pelo mundo sem chamar a atenção de ninguém. Desnecessário dizer que seus planos não foram tão bem sucedidos quanto ele gostaria.
Enfim, usando o mesmo expediente que Heroes usa para introduzir elementos novos na narrativa sem maiores explicações, o pontapé inicial para a vinda de Ian a Miller é um quadro que mostra o futuro pintado por Pirer. Nele, Ian está no Brazzi, mais especificamente em Miller. Por razões desconhecidas, ele não gosta muito da idéia, mas a elipse deixa claro que ele se deixou convencer por Pirer.
Já em Miller, Ian menciona que o céu de lá é bonito. A pessoa em que o personagem é baseado disse justamente a mesma coisa sobre a contraparte real de Miller, Franca. Isso é, portanto, uma homenagem a ele.
Outra referência que merece ser mencionada é o fato de os EUA serem chamados de U.S. and A., do mesmo jeito que o personagem Borat, do humorista inglês Sacha Baron Cohen, chama o país.
A última coisa é a menção a um prédio que tem uma luz neon de cor azul, a mesma usada na entrada da Unesp de Franca, onde os personagens, e as pessoas reais, se conheceram.
The Real Alden
Aqui não existem grandes referências. Mas foi nessa estória que resolvi mudar a direção que o personagem Alden tomaria após resolver o imbróglio em Bacamarte. Em vez de ter um monte de pessoas legais e altruístas para depois inventar os vilões, por que não pegar um personagem interessante e mudar tudo?
There Go My Heroes
Floresta Warriórica = Floresta Amazônica.
Os heróis do título são velhos conhecidos do universo de ação, tanto da TV quanto do cinema. Mag é MacGuyver, o famoso personagem da série homônima dos anos 1980. Era ele que conseguia montar as mais intrincadas bugigangas com apenas uma caixa de fósforos e seu próprio cuspe. Jack é Jack Bauer, de 24 Horas. E Tchuck é Chuck Norris, um ator que havia caído no esquecimento até que uma série de brincadeiras na internet, chamadas de Some Random Facts About Chuck Norris restabeleceram sua notoriedade.
Os personagens, devo admitir, são tão planos que até dá dó. Mas essa era a intenção, realmente: fazer uma paródia do meu jeitinho com eles.
Bem, os três estão à procura de Morutopia, referência à Utopia, uma cidade perfeita imaginada por Thomas Morus no livro homônimo. Chamo-o de Tomás porque algumas traduções do livro mostram na capa que o autor chama-se Tomás Morus. Vai entender.
Também faço alusão um pouco, em relação a Morutopia, a Opak Re, a cidade perdida no continente africano que Elijah Snow, personagem central da série de quadrinhos Planetary, visita.
Os curupiras, personagens do imaginário popular brasileiro, são confundidos com elfos, do folclore europeu.
Railands é o correspondente fonético para Highlands, região da Escócia que está relacionada à cultura celta e conseqüentemente aos elfos.
Quando Tchuck dá um grindhouse kick, a referência é dupla: primeiro ao roundhouse kick, uma voadora circular característica do ator, e ao projeto Grindhouse, que uniu dois filmes cujos tons eram puramente satíricos. Um dos deles é dirigido por Quentin Tarantino e o outro por Robert Rodriguez.
O homem branco a quem os curupiras se referem é Alden. Isso é coerente com a afirmação deste no último texto, sobre seu exército sobrenatural estar quase pronto.
A moto Kamen de Eric Norton é uma homenagem ao seriado live action japonês Black Kamen Rider, sobre um personagem que vestia uma fantasia de besouro negro para lutar contras as forças do Mal, e que obviamente usava uma moto também.
Essa estória se passa imediatamente antes dos acontecimentos de Welcome to Miller, Mr. Abercrombie, e é por isso, e por uma alusão ao escritor Bret Easton Ellis, que ela termina de forma abrupta.
Detective Olho Privado: Arnaldo De Oliveira
Essa estória não tem muito a ver com a cronologia, digamos assim, oficial, apesar de ser ambientada no mesmo universo. Apenas queria escrever um conto detetivesco rústico e satírico, baseado nos bons e velhos romances policiais. A única menção digna de nota é que chamei o inferninho da cidade de PSENU, que é UNESP ao contrário.
O Início
As peças começam a se juntar aqui. Pinturas do futuro, máquinas do tempo, visitas do futuro... O propósito para todos os acontecimentos descabidos começa a ser revelado, e a aliança que promete mudar o mundo, forjada.
A Diretriz Monteiro foi a minha maneira de homenagear o homem que abriu meus horizontes da leitura quando pequeno, Monteiro Lobato. Ela está, como não poderia deixar de ser, relacionada aos temas folclóricos que ele abordava em suas estórias do Sítio do Pica-Pau Amarelo.
A cena final também está relacionada a Lobato. Quando Alden pede cinco garrafas com tarjas vermelhas, ele se refere às únicas prisões conhecidas para sacis. Essa informação foi diretamente extraída de O Saci, muito embora também faça parte do arcabouço cultural popular.
Tolo, o assistente de Alden, tem o mesmo nome do assistente do xerife Hague do Filme Planeta Terror, que fez parte do Projeto Grindhouse.
December Boys
Essa estória nada tem a ver com a trama central, escrevi-a apenas por diversão.
December Boys é o nome de um filme estrelado por Daniel Radcliffe, o ator que interpreta Harry Potter na série para o cinema. Como ela foi escrita em dezembro de 2007, me pareceu apropriado.
Absolut é uma vodca cara para os padrões normais, mas muito boa.
A frase “Se vamos beber, vamos beber” é proferida pelo personagem Desmond David Hume no episódio 308 da série Lost, “Flashes Before Your Eyes”, de longe o meu favorito na terceira temporada.
A frase “Idiotas mão morrem de tédio. Preferem morrer de vodka.” É uma adaptação livre de uma frase de Fiodor Dostoievski, que NÃO escreveu Guerra e Paz (foi Tolstói, outro russo), muito menos nas Estrelas (referência à Guerra nas Estrelas, de George Lucas).
Under Attack
Afonso y Afonso é a contraparte da rua Alonso y Alonso, em Franca, SP.
Nesta estória, temos um pequeno flashback, que revela que, desde quando eram pequenos, os irmãos Abercrombie tiveram algum contato com o sobrenatural. Ian aparentemente fugiu daquilo o quanto pôde, enquanto Alden explorou-o cada vez mais.
Make Them Talk, Tolo
Mais informações sobre sacis, todas retiradas d´O Saci, e um pouco adaptadas para o meu mundo.
Magioni Castro é a contraparte da rua Major Nicácio, em Franca, SP.
Cowville é Barretos, um lugar que não gosto muito e por isso resolvi associá-lo a uma coisa dolorosa, como a tortura que está por vir para os dois personagens.
Agora sabemos da existência de um colar, da mãe dos dois irmãos. Qual será a intenção de Alden em obter esse artefato?
Nosso Próprio Planetário
Esse aqui foi o meu Everest, em termos de coesão. Queria desesperadamente inserir algo inovador e surpreendente, mas que fizesse sentido. Mas chega de expressar minhas agruras de escritor.
O título já faz menção, escancaradamente, a um de meus títulos de quadrinhos favoritos, o Planetary de Warren Ellis. Elias Neve, o personagem apresentado aqui, é a contraparte de Elijah Snow.
Na narrativa de Ellis, duas outras pessoas (Jakita Wagner e O Baterista) resgatam Snow de uma vida medíocre e oferecem um lugar em suas fileiras para explorar a História Secreta do Mundo, mas existem outros fatores importantes a seu respeito revelados ao longo das edições. Em meu universo, Neves também é um homem alquebrado a princípio, mas por razões completamente diferentes e sem nenhuma grande surpresa em relação a isso. Ele é apenas um homem que se desiludiu com o mundo e parou de se importar até que fosse quase tarde demais.
Paranóia Adamsiana: sensação equivocada, segundo Douglas Adams em seu Guia do Mochileiro das Galáxias, que todos os seres têm de que existe algo acontecendo no universo.
"Lembrete cósmico": tirei essa de uma edição da Liga da Justiça escrita por Grant Morrison, em que Batman diz que as coincidências servem para lembra-nos de que existe sincronia no universo.
Multiverso é um termo usado em diversas estórias de ficção, mas o formato de floco de neve que lhe é inerente veio diretamente de Planetary também.
A Esphera das Probabilidades, por incrível que pareça, é idéia minha. Funciona como uma bola de cristal, mas com uma espécie de "explicação científica" por trás dela.
A Federação Espacial é a mesma do universo de Star Trek, tanto que os números que o designam são os mesmos que, se digitados, formam a palavra Enterprise, a principal nave da Frota Estelar. O nome Amerika já apareceu em outros veículos, mas não me lembro exatamente de onde. E é óbvio que o número desse lugar é a data do descobrimento da nossa América invertido. Quanto a Terra 3, esta é inspirada na Graphic Novel Terra 2, de Grant Morrison, em que o Universo DC normal é o reflexo de uma terra em que vilões sempre ganhavam.
A raça Tenruki e o mineral Turilian são duas outras invenções minhas. Nanorobôs também já fazem parte do imaginário popular do século XXI.
O uso de curare é o mesmo empregado em Heroes, quando o doutor Suresh usa uma pequena quantidade deste veneno para neutralizar os poderes do vilão Sylar.
Esse texto acontece após os acontecimentos de Make Them Talk, Tolo. Também dá para perceber que as intervenções de Eric e Ian começaram em 2006, no mínimo.
- Achei que você não acreditasse em coisas absurdas como curupiras e mulas-sem-cabeça.
- Quieto!
Ian girou o cordão metálico que havia pegado em sua mochila acima de sua cabeça, com mais velocidade a cada volta, e foi abaixando-se. De repente, brasas do tamanho de bolas de gude começaram a ser jogadas contras os dois, mas eles estavam protegidos pelo vórtice criado. Um dos sacis tentou, em vão, ultrapassar a barreira em um dos intervalos de tempo entre uma volta e outra e acabou estraçalhado.
- Que porcarias são essas? – perguntou Eric, referindo-se às brasas que ricocheteavam no fio.
- Sacis produzem secreções que saem pelos buracos que têm em suas mãos. Uma vez arremessadas, se solidificam e entram em combustão em contato com o ar.
- Muitíssimo bem explicado, mas de onde esses porras apareceram? Foi seu irmão pirado que os mandou?
- Acho que sim. A aparatação dos sacis geralmente deixa um forte odor de enxofre, mas alguém deve tê-los ensinado a esconder. E meu irmão é suficientemente competente para fazê-lo.
- Parabéns para ele. Mas como fazemos alguma coisa para atacá-los, em vez de apenas ficarmos aqui esperando eles irem embora?
- É muito simples. Vocês não fazem. – disse Alden Abercrombie, que teleportara-se instantes antes para o local.
Um clarão de luz iluminou a avenida Magioni Castro por alguns instantes, mas depois não havia mais nada lá.
Cowville, Sul de Minas.
- Bem-vindos às minhas humildes instalações, Ian e seu amigo. Eric Norton, não? Você tem uma moto interessante. Meus operativos estão tentando desmontá-la para descobrir seus segredos, mas ela tem um sistema de segurança formidável. É por isso que vou precisar de um pedaço seu para ativar o sensor de DNA e também da senha para destravá-la.
- Nunca vou te dizer nada!
- É claro, é claro. Eu esperava por essa reação. Na verdade, ansiava muito por ela. Tolo aqui conhece alguns segredos da dor, e antes do final do dia você estará cantando como um passarinho. Quanto a você, Ian... Onde está o colar de mamãe?
- Acho que... Tolo, não é? Tolo terá que ter alguns momentos a sós comigo também.
- Pois bem. Faça-os falar, Tolo.
Miller, Sul de Minas.
Trechos do diário de Elias Neve.
02 de outubro de 2005
Nunca estivemos sozinhos. A sensação de que existe algo maior acontecendo bem debaixo de nossos narizes não é mera paranóia Adamsiana, e sim um lembrete cósmico de que nosso universo não é o único.
01 de fevereiro de 2006
O Multiverso é como um floco de neve, com milhares de realidades alternativas inescrutáveis e cheias de mistérios a serem revelados. Posso vislumbrá-las através da Esphera das Probabilidades, um artefato alienígena que pussuo há mais de oitenta anos, mas que só há poucos meses consegui fazer funcionar. Todas as vias de informação, em todas as dimensões, podem ser captadas pela Esphera e, se corretamente sintonizadas, provêm interessantes objetos de análise.
Ouço todos os noticiários radiofônicos dos anos 1940 da Terra 3. Leio todos os diários de bordo da Federação Espacial no século XXIII do universo 3683777473. Na Amerika 2941, os espanhóis são conquistados pelos Inkas. Como sei disso? A Esphera me mostrou o momento em que os sacerdotes escreveram sua História em pergaminhos de pele de llama.
É impressionante observar o presente, o passado e o futuro de cada realidade análoga à minha, pois embora existam variações gigantescas, os mesmos elementos humanos, os bons e os ruins, estão presentes. É frustrante, na verdade. Meu acesso como espectador é irrestrito, mas não posso interagir com as criaturas de qualquer uma dessas dimensões. Não posso compartilhar minha experiência depois de ver as mesmas coisas acontecerem em milhares de lugares e assim salvar vidas, como minhas contrapartes fazem em seus mundos.
Aqui, não sou nada. Meu dom de reduzir a temperatura ambiente não funciona desde 1930. Além disso, estou paralisado da cintura para baixo desde os anos 40, e tudo que posso fazer é observar, dia após dia, esse mundo estranho e muitos outros girarem sem minha interferência.
10 de março de 2006
Há alguns meses, descobri que existiam outros universos, e passei a observá-los. Minha Esphera das Probabilidades me mostrava tudo o que eu desejava saber sobre qualquer mundo, menos o meu.
Não dei muita importância ao fato, já que achei que nada que valesse a pena pudesse existir aqui. Eu estava errado.
15 de julho de 2006
Andar. Congelar. Salvar o mundo. Três coisas que não faço desde o século passado, mas que estou pronto para voltar a fazer.
Em uma realidade alternativa não muito diferente da nossa, Elias Neve (com outro nome, obviamente) é um homem extraordinário com imensos recursos, disposto a desvendar a estória secreta do mundo. Aqui, ele é apenas um imigrante dos U.S. and A. que teve a sorte de encontrar um objeto fantástico e que nunca fez nada a respeito. Mas algumas pessoas têm direito a uma segunda chance.
Enquanto Ian e eu fazíamos uma ronda por Miller, os sensores da Kamen apontaram um pico de energia imenso em uma casa de um bairro afastado. Fomos até lá, e dentro vimos um homem desmazelado, de cabelos e barba longos e brancos, que observava atentamente uma esfera que transmitia imagens de um rapaz de franja ridícula falando algo para seu irmão e pulando em seguida de um prédio alto.
Esperamos o homem dormir e investigamos o objeto. Uma Esphera das Probabilidades, projetada pela raça Tenruki (descrição cortesmente dada pelo Dr. Lloyd), que podia receber informação pura de outras dimensões e mostrá-las em sua superfície de Turilian polido. Ela era energizada por eletricidade ambiente, explicando assim o súbito pico de energia. Além disso, li seu diário, e descobri que provavelmente tinhámos mais em comum do que eu poderia imaginar a princípio.
Acordamos Neve, explicamos nossa linha de trabalho e oferecemos um lugar em nossas fileiras. Tudo o que pedíamos em troca era que pudéssemos usar a Esphera com sua supervisão. Ele aceitou na hora.
Estando de acordo, era hora de ajudá-lo como pudéssemos. Nanorobôs do século XXIV curaram sua espinha, assim como tiraram a quantidade ínfima de curare de seu hipotálamo que impedia-o de usar seus poderes.
Conseguimos reconfigurar a Esphera para mostrar informações de nossa própria realidade, para prever possíveis aconte